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Morreu Vitor Direito e eu estou triste
porque sinto agora que gostava muito
dele, tal como se gosta de um pai que
nos ampara os passos, a modos
que
um PATRIARCA.
Foi Vitor Direito quem me abriu
as portas do jornalismo.

O tabaco e a reforma desnecessária mataram agora um mago dos jornais; um homem que construiu um jornal diário usando uma habilidosa receita
de sopa de pedra para poder contornar o poder político manhoso, aveso
a realidades incontornáveis.

Quando o Correio da Manhã arrancou, em Fevereiro de 1979, éramos quinze jornalistas cheios de entusiasmo a batalhar em velhas máquinas
de escrever.

Entrávamos então pela montra de uma loja na Rua Ruben A. Leitão, perto do Largo do Príncipe Real, e descíamos por uma escada estreita, para nos encavalitarmos numas secretárias
de um metro por cinquenta centímetros de tampo.

Nesses temos saudosos, as reportagens mais distantes eram feitas
num automóvel - um Fiat 600! - que chegava todas as manhãs
pelas sete e trinta, conduzido estoicamente por Vitor Direito.
O automóvel parava e o VD saía, esticava as pernas e metia mais um cigarro à boca.
Era um homem alto, um pouco curvado, de sorriso amigo.
No seu olhar vislumbrava-se um turbilhão constante de ideias mágicas.

Entrava pela montra da tal loja (que hei-de fotografar)
e punha-se a andar de um lado para o outro muito inquieto,
até se sentar no seu gabinete, logo à entrada do lado esquerdo
e sempre, sempre de porta escancarada.

Lia e relia os jornais do dia anterior e de seguida fazia uma reunião com três sopeirões: o chefe de Redacção e dois sub-chefes de Redacção, que eram gente que felizmente não sabia dizer não; eles ouviam, mudos e quedos e executavam o que ele dizia, tim-tim-por-tim.

Depois o VD pegava em meia folha A4 e começava a gizar a primeira página do jornal. Fazia-a e refazia-a durante horas a fio, chamava este e aquele jornalista e a coisa estava pronta lá para as três da tarde. Afastava então o esquiço, muito perfeito, e sorria, sorria muito, como se fosse um miúdo com um belo brinquedo nas mãos.

Sinto agora muitas saudades do VD, como todos carinhosamente lhe chamávamos e penso que ele sabia. Amanhã vou continuar este texto.

Morreu Vitor Direito. Choremos, choremos, choremos.






Ontem estive no velório do VD na Igreja dos Salesianos no Estoril, onde encontrei os dois filhos de Vitor Direito. Na aparência  estavam
conformados
com a morte do pai.

O Paulo falou-me da pneumonia
inesperada do pai, da sua teimosia em ir
ao médico e do posterior deambular pelas consultas; queixas dolorosas
que me muito impressionaram.

Cheguei às nove e meia da noite
e fiquei
até ao fecho daquela capela
mortuária,
aparentada com um
vulgar salão de
bombeiros.

Éramos poucos no velório, para grande surpresa minha, mas amanhã (pensei) o funeral será mais composto, tal como o V.D. merece.
Estarão 200 ou 300 pessoas, quem sabe talvez mil pessoas ou mais.
E eu irei sentir uma enorme pressão. 

Não gosto de ir a funerais e detesto os funerais que se transformam em manifestações. Mas, seja o que for, lá estarei no funeral de Vitor Direito. O VD irá gostar me ver. Vai até ficar surpreendido. Lá estarei entre as centenas de admiradores e amigos.


Hoje, no dia do funeral, escovei os sapatos e sacudi o fato escuro pronto para mergulhar numa multidão de jornalistas, de repórteres, de famílias inteiras, de dezenas de grandes nomes da finança, da economia, da política e das artes.

Prevendo essa avalanche, cheguei muito cedo à capela mortuária da Igreja dos Salesiasnos. Sentia que iria ficar constrangido com tamanha multidão.

Deixei o carro muito perto da capela mortuária e reparei logo que havia pouca gente - que o lcal estava quase deserto - e isso deixou-me bastante pior e sem palavras.Cumprimentei o Paulo e o irmão (dois dos quatro filhos do VD) e sentei-me na segunda fila, logo à entrada, para melhor presenciar... a ausência de mundo.    Enquanto mirava o caixão, com colunetas inesperadas aos cantos, ia anotando os jornalistas e gente conhecida que desembocava  no salão despropositado, com paredes de cimento mal pintadas de cor de mostarda.

Contei 11 jornalistas e mais 12 outras pessoas a maior parte familiares de V.D.. Vi o Agostinho de Azevedo, um homem que sempre me pareceu muito religioso, e que ficou com a chefia de Redacção em detrimento de Jorge Morais, mais irrequieto e muito talentoso. Vi o Andrade Guerra, um regular homem justo e perfeito, que sempre achei pouco agil, mas muito respeitador.

Vi o José Pedro Castanheira, um camarada fantástico do tempo do jornal A Luta. Vi também a saudosa Maria Augusta Silva, agora reformada do Diário de Notícias, com o Pedro Foyos (também ex-Diário de Notícias), um homem admirável apaixonado pela fotografia e agora também romancista (ainda muito novo fiz uma reportagem para o seu «Foto-Jornal» já desaparecido). Também lá estava o Lobo Pimentel Júnior, um grande fotógrafo e amigo amigo, com quem fiz muitas reportagens, filho do saudoso Lobo Pimentel, também fotógrafo, já falecido, e com quem muito gostei de trabalhar.

Também lá estavam o João Marcelino (ex-director do CM) e o Octávio Ribeiro (actual director do CM). Faltam-me quatro que agora não descortino, porque escrevo este texto já muito dias depois.
Mas eram poucos e isso chocou-me bastante. 



No dia anterior, no velório tinha estado o Rogério Bueno de Matos, agora dedicado à assessoria de Imprensa, o Celso de Matos, um grande camarada de profissão, e o Marques Valentim, um grande fotógrafo e camarada, um homem justo e perfeito. 

Ah! Claro, lá estava o Agostinho de Azevedo (o chefe de Redacção que venceu a candidatura mais interessante de Jorge Morais, um camarada muito turculento, imprevisível, mas cheio de mérito, que viria a fundar o jornal 24 Horas, rejeitado por VD) e o Andrade Guerra (um dos dois sub-chefes de Redacção, um camarada muito calmo e respeitador das vontades do director).

Tinha feito contas a duas  ou três centenas ou mesmo muito mais. Mas afinal, agora e ali, com a urna a entrar na carreta, todos contados e recontados, somávamos apenas uns vinte e poucos. E isso arrasou-me.

Sinto agora um grande amargo que levará muito tempo a passar, até eu conseguir refazer algumas ideias erradas sobre o VD.

Eu imaginava-o ligado à alta finança, com a cumplicidade de Carlos Barbosa (que não compareceu ao funeral, porque comandava o Rali Portugal, no Algarve), mas esta minha ideia é motivo para um outro texto diferenciado nesta página.

Falarei disso mais à frente porque estou sem palavras.




Quando soube da morte do VD pensei escrever muitas linhas sobre ele e sobre muitas coisas, mas depois lembrei-me dos seus célebres BILHETES POSTAIS e do DE VEZ EM QUANDO; eram verdadeiras FARPAS modernas, mas em escrita económica e sobretudo muito clara.


Mas usando muitas ou poucas palavras eu tenho a declarar duas grandes dívidas de gratidão para com o VD: entrei pela mão dele no mundo da Imprensa e ele foi personagem-guia no meu livro OS SEGREDOS DO PATRIARCA.


Há muitos jornalistas portugueses que poderão ter um dívida em parte semelhante, mas não a encaram como tal. Ignoram que se tornaram-se bons jornalistas sob a direcção do VD em A Luta ou com mais propriedade no CORREIO DA MANHÃ.


É evidente que o mérito profissional será sempre dos próprios jornalistas e ignora-se por tradição, comodismo e oportunismo a mão segura que os conduziu ao topo da profissão. E esquece-se até que o jornal - neste caso o CORREIO DA MANHÃ - foi o ganha-pão das suas famílias.


O projecto CORREIO DA MANHÃ saíu inteirinho da cabeça do VD e ocupou um lugar vago no panorama da Imprensa portuguesa. O VD gostava dos tablóides ingleses e fez um bom tabelóide em Portugal, sem apoios, até certa altura.




A morte do VD tornou evidente que a minha vida e, sobretudo, a minha escrita tem balizas providenciais que me fazem muita falta quando desaparecem.
No funeral do VD, já no crematório, Maria Augusta Silva chorava dizendo que 'o mundo ficara diferente' e eu compreendi que tinha de ajustar o meu mapa de vida. 

Sempre que uma pessoa querida desaparece, tenho de fazer reajustamentos penosos à minha percepção da realidade. E isso tornou-se muito urgente com a morte do VD. 

A sua partida tornou evidente a falta de muitas outras pessoas já desaparecidas. Pûs-me a fazer contas e descobri que já se foram muitas. 

O meu avô materno foi o primeiro dessa dolorosa série. Depois foi Luís Garrido; e lá fomos todos ao funeral com a figura tutelar do VD à frente. Matou-se. 

Depois foi Fernando Fernandes, o homem apoucado com o regresso forçado das ex-colónias, que logo muito pela manhã se sentava a picar todo o noticiário do CORREIO DA MANHÃ
Morreu de excesso de desgosto. Lá fomos com o VD. 

Mais tarde morreu José Luís Macedo, um homem que adorava ser jornalista, com quem comecei a fazer um jornal de liceu.
Morreu de doença má. E lá foi de novo à frente o VD, que o ajudou na doença. 

Têm sido muitas as mortes de pessoas que me faziam falta. 

Recordo até Varela Silva, o marido incondicional de Simone de Oliveira. Morreu muito novo, sempre de sorriso nos lábios, entusiasmado com o espectáculo, amante do Parque Mayer já moribundo. Era um homem grandioso, eloquente. Gostava de sardinhadas e de longas e animadas conversas. Tinha medo de passar a ponte de carro e recusava-se a a arrumar o BMW de Simone. Também se foi.

Na grelha construtiva da minha realidade, senti também a morte de Álvaro Cunhal, Diana, de muita outra gente que não conheci pessoalmente, mas que eram cidades do meu mapa.

A morte do VD mudou o meu mundo. O mundo passou a ser outro. E uma coisa é certa o VD já não irá ao funeral de mais ninguém. Poderá lá estar, mas não o veremos.




A morte do VD isentou-o em definitivo de comparecer em Tribunal, num processo que lhe movi por direitos de autor há 12 anos na Justiça.

O processo foi intentado também contra Carlos Barbosa e a Presslivre e caiu nas mãos da Justiça preguiçosa.

Os juízes têm sido zurzidos, acusandos de terem férias despropositadas no Natal e depois na Páscoa e de não cumprirem a lei que apenas lhe dá o mês de Agosto, continuando a quase fechar os tribunais de 15 de julho a 15 de Setembro.

O aumentado das custas judiciais e a privatização de certos actos da Justiça poderá ter transformado o recurso aos tribunais num luxo.


Ao incentivar os centros de mediação, os julgados de paz, a solicitadoria na execução de penas, o pagamento das custas judiciais à cabeça ou obrigando, por exemplo ao pagamento de 10 euros por cada fotocópia de processo o Governo poderá estar a afastar os cidadãos da justiça.


Também eu estou a pensar em desistir do meu processo que está há 12 anos parado. Imagine-se, recebi uma coima por não ter indicado que representaria a Ré Presslivre (considerado um incidente anómalo pela juíza). Ao fim de 12 anos ou, mais precisamente, ao fim de 11. A notificação foi feita o ano passado para uma morada onde já não habito há sete anos, mas a tal coima veio para a minha morada actual!


Paguei o que o juiz de execuçao de penas me indicou, mas vou desistir do processo tão depressa quanto possível. Não estou disposto a pagar incidentes anómalos. Eu sei que tenho o direito de deduzir oposição nos termos do artigo 236 do Código de Processo Civil, mas não irei contestar disparates e arriscar a pagar novos incidentes processuais



Desisto do processo, do qual o VD já se safou há semanas...
Ele sempre foi um homem muito esperto!




João Aguiar (que faleceu com 66 anos) garantiu-me um dia que o sucesso livreiro dependia muito da continuidade dos personagens. Fernando Dacosta disse-me o mesmo: o sucesso editorial depende de um herói que passe de livro em livro. E Vitor Direito (VD) ouviu e sorriu.

Trabalhei com João Aguiar e Fernando Dacosta em A LUTA, um templo do jornalismo. O João Aguiar tornou-se escritor (A VOZ DOS DEUSES). Fernando Dacosta continuou até à VISÃO (com muitos livros pelo meio: O VIÚVO). E o VD manteve-se ao leme do Correio da Manhã.
Do João Aguiar recordo os dias passados na Reforma Agrária, a contarmos as amarguras das pessoas revoltadas; os ricos sem as terras de estimação e os pobres à espera que essas terras lhes salvassem as vidas. Mais tarde fiz a reportagem sobre a HERDADE DE MACHADOS.

Francisco Sá Carneiro quis escortanhar aquela imensidão de terra mas para nada, porque as parcelas do fim ficavam longe das vilas, das águas e dos caminhos. O VD leu, abanou a cabeça e sorriu.

Os anos passaram, o João continuou a escrever e morreu, o VD faleceu também rodeado de jornais no hospital, vitimado pelo tabaco. o Dacosta está igual, felizmente. Cada um fez o seu caminho e nenhum deles desistiu. Eu sou mais novo, mas a lição ficou bem gravada: desistir nunca! Pode-se parar, fingir que se desistiu, «mas nunca desistas, rapaz!» disse-me um dia o VD. O jornalismo é um ofício muito nobre, a escrita é uma paixão e a denúncia das injustiças é um imperativo profissional, que dá razão às nossas vidas e serenidade ao espírito.


 
     
 
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